domingo, 15 de março de 2009

Uma mulher (quase) perfeita - Crônicas da Sicililândia

Ao passar pela porta da Sicililândia, entrando na livraria, uma mulher, de tão linda que era, parou toda a turba de gente que se encontrava no estabelecimento para contemplá-la. Era tão linda que os homens pararam para admirá-la e sequer sentiam as cotoveladas que suas respectivas esposas (ou namoradas) lhes aplicavam, na tentativa de chamar sua atenção. Até algumas mulheres pararam para observá-la, invejando sua beleza, sua desenvoltura, seus cabelos loiros esvoaçantes, as roupas que usava. Até o tempo parecia ter parado. Ninguém se mexia, apenas a linda mulher, que consciente de que chamava tanto a atenção por sua beleza, já estava acostumada àquilo. As pessoas mal ousavam respirar. Ninguém piscava. Todos só tinham olhos para aquela deusa encarnada que tinham diante de si.
E um vendedor da Livraria, que só ao perceber que todos tinham a atenção fixa em outro lugar, que não fosse nos livros, foi que se virou e viu a beldade que estava na Sicililândia. Vê-la assim, tão de repente, sem ter se preparado previamente, foi como receber de uma vez todos os raios de sol de uma manhã de domingo diretamente em seu rosto. Quase ficou cego. Não ousava respirar. Só tinha olhos para ela. Seus cabelos eram lindos, seus olhos de um azul tão lindo quanto o céu de início de primavera, seu rosto tão perfeito quanto o retratado por um pintor renascentista e o cheiro do perfume que usava era como o de mil flores desabrochando ao mesmo tempo.
Ela era linda, ela era perfeita e sorriu ao vê-lo. Vinha em sua direção ao vendedor. Todas as pessoas que estavam na sua frente lhe deram passagem, formando um corredor para que ela chegasse até onde queria. O vendedor, já se preparava para se abaixar, reverencia-la, e pedi-la em casamento. Era isso que ele pretendia fazer: pedi-la em casamento. Ficava a se pensar como tinha vivido até aquele momento sem tê-la por perto, sem conhece-la. Ao vê-la, agora, bem ali, na sua frente, vindo em sua direção, foi que se deu conta de quanto sua vida tinha sido vazia de sentido até então.
Ela se aproximava com seu andar majestoso. Seus pés quase não tocavam o chão. Era como se ela flutuasse, tal como os anjos. Sendo que ela não tinha asas. Ela era humana, por mais que parecesse uma deusa, um anjo.
Quando parou a sua frente, ele prendeu a respiração, mais do que já estava presa. Ela iria lhe dirigir a palavra, iria pedir algum livro ou, quem sabe, dizer que aceitava se casar com ele.
Ele já começava a devanear, imaginando como seria o casamento, como ela estaria linda no dia, em quanto seus amigos iriam invejá-lo, em quanto ele se sentiria o homem mais sortudo do mundo. Era como a união entre uma deusa e um homem.
Ela o olhou nos olhos e iria lhe dirigir a palavra. Ele esperou. Todos ao seu redor esperavam, imaginando o que ela iria falar. Ela movia lentamente os lábios, abrindo a boca, para proferir as tão esperadas palavras.
- Você tem O Segredo? – perguntou ela.
Todos os que estavam ao seu redor, sentindo uma imensa decepção. Ela, afinal de contas, não era uma deusa.
O vendedor, como que caindo do céu em que se encontrava há alguns segundos, abaixou a cabeça. “O Segredo?”. “Como pode uma mulher dessas, tão linda, tão perfeita, procurar por um livro desses?”.
Bem, aquilo era o trabalho dele, aquela era uma cliente, e ele tinha que vender o livro, não importa qual fosse e a quem fosse.
- Sim. Eu tenho o livro – e foi pega-lo. Entregou o livro à mulher, que agradeceu, foi até o caixa, pagou usando seu cartão de crédito, antes perguntando se podia parcelar a compra, e foi embora, deixando para trás um rastro de admiradores e um vendedor decepcionado.

Por Arlindowsk de Limovich

2 comentários:

Erlon.Br disse...

vixe meu cabra, num é que muitos vendedores de livro tem este pre-conceito: livros de auto-ajuda é lixo que vende!

FUI um vendedor de lixo opa, [vendedor de livro de auto ajuda] numa famosa livraria...
... nao li muitos livros de auto-ajuda... mas nao tenho esta visão pessimista.

Anônimo disse...

o txto eu nem preciso dizer q está bom, mas o psudônimo esta imagável!!