Difícil mesmo é qual o cliente-leitor não sabe o título do livro nem sabe pista alguma, que possa ajudar a desvendar todo o mistério. As únicas informações que têm são a de que o livro foi recomendado por uma revista, mas para saber qual revista e quando saiu essa recomendação...
- Eu tenho certeza, meu filho, que o livro foi recomendado por uma revista. Só não lembro bem em que revista foi. Não sei se foi a Veja, Época, Istoé, Caras, Capricho ou numa revista de receitas – ou seja, o cliente não tem certeza de nada.
E o cliente ainda insiste, dizendo “ter absoluta certeza de que a capa era assim”:
- A capa era azul, com um tom de verde puxado pra o cinza com uns toques vermelhos e o nome do título e do autor em cima, de um tom marrom ou preto – mais uma vez, as informações que ele “sabe” não ajudaram em nada para desvendar de que livro se trata.
Em casos como esses, faz-se necessário chamar-se Sherlock Holmes ou Agatha Christie, para que possam, juntos, personagem e escritora, tentar desvendar esse segredo, que mais parece uma coisa do além.
E o cliente ainda insiste, por mais impossível de adivinhar que seja de que livro se trata.
- O livro, eu tenho certeza – e ele fala isso com uma convicção... – se trata de um lançamento desses da área de Literatura, Auto-Ajuda, Negócios, Espiritismo ou algo parecido.
Em momentos como esse, o vendedor, já completamente sem paciência, olha para o céu, pedindo aos deuses a paciência necessária para não dar as costas ao maldito cliente (em momentos como esses, o cliente torna-se um maldito que está ali apenas para lhe roubar o tempo) ou, o que é mais provável, pular em cima dele e lhe aplicar um “mata-leão” como lição, para que ele sob pressão, lembre de que livro se trata.
Fora isso tudo, ainda tem aqueles clientes que fazem aquela misturada nos títulos dos livros. Não falo dos “O Soltador de Pipas” ou “Soltador de Balões”, pois estes são fáceis do vendedor adivinhar. Ruim mesmo é quando o cliente “tem certeza” de que o título que tem em mente é o correto, como o daquela senhora simpática que chega para o vendedor e pergunta ao vendedor:
- Você tem “O Padre (ou é o frade, meu filho) e o Homem de Negócios”?.
E ela fala com tanta certeza que o vendedor passa bons dez minutos a procurar no seu programa de busca pelo “Padre e o Homem de Negócios”. Mas por mais que se tente, não se consegue encontrar tal livro, até que uma luz surge em sua cabeça, como nos personagens de desenho animado quando têm uma genial idéia, e ele pergunta:
- Não seria “O Monge e o Executivo”, senhora?
Sim, era este o livro que ela queria desde o princípio.
E tem aqueles que misturam os títulos, como a mocinha que queria “A Menina que Soltava Pipas”. O vendedor, nesses casos, tem que pedir para ela se decidir se quer “A Menina que Roubava livros” ou “O Caçador de Pipas”.
E ainda surgem os que misturam as estações do ano, cidade e profissão, como a mulher que perguntou se tinha na livraria “Outono em Berlim”, querendo, na verdade, “Inverno em Madri”, ou o rapaz que queria “O Carteiro de Istambul”. Tudo bem que este errou a profissão e a cidade, quando queria “O Livreiro de Cabul”, mas o vendedor da Sicililândia sabe sair de situações como essa mantendo a compostura, sem nunca rir.
E há, ainda, aquelas verdadeiras charadas, como a da mulher que gostaria de adquirir o livro “Regime do Estômago”. O vendedor, dessa vez tinha sido pego de surpresa, pois não fazia idéia de que livro se tratava. Tentou todas as possibilidades de títulos, até que a cliente comentou que ele tinha saído numa revista da semana passada, na Veja, e estava entre os mais vendidos (e aí o vendedor volta para a questão de revista, imaginando, de antemão, que não se tratava de Veja da semana passada, mas sim da GloboRural de dois meses antes). Mas pistas como esses, em situações tão críticas, até que podem ser úteis.
- E a capa é de uma cor bem bonita, berrante – o vendedor olha para a cliente, que veste uma saia mais colorida que um arco-íris, calça uma sandália de salto alto extra-fino, usa uma bolsa que é quase uma mochila, na qual ela guarda até o seu armário de banheiro, e percebe que ela usa uns brincos que lhe chamam a atenção, que são duas pequenas pedras de um tom alaranjado. O vendedor, safo como é, faz uma associação de idéias e começa a pensar:
“Regime” é igual a “Dieta”, o “Estômago” fica na barriga, barriga é “Abdômen”.
- Não seria, senhora, o livro “Dieta do Abdômen”?
Sim, era aquele o bendito livro!
E ainda tem gente que acredita ser fácil a vida de vendedor na Sicililândia!
por Arlindowsk de Limovich