domingo, 29 de março de 2009

"Eu não sei bem qual é o título..." - Crônicas da Sicililândia"

Como se não bastassem tudo pelo que os vendedores da Sicililândia têm que passar, todas as figuraças que têm que atender, ainda por cima aparecem aqueles clientes que chegam para os funcionários soltando aquela famosa frase, que deixa os vendedores de cabelo em pé: “Eu não sei bem qual é o título do livro, mas...” e aí eles começam a dar pistas, com a esperança que o pobre vendedor, liberando o seu lado “mãe Diná” adivinhe de que livro se trata, que livro o cliente quer. Todo vendedor já passou por isso, e com certeza já passou pela sua cabeça a idéia de esganar o cliente, pois “como é que pode, uma pessoa vir comprar um livro e sequer sabe qual é?!”.
Difícil mesmo é qual o cliente-leitor não sabe o título do livro nem sabe pista alguma, que possa ajudar a desvendar todo o mistério. As únicas informações que têm são a de que o livro foi recomendado por uma revista, mas para saber qual revista e quando saiu essa recomendação...
- Eu tenho certeza, meu filho, que o livro foi recomendado por uma revista. Só não lembro bem em que revista foi. Não sei se foi a Veja, Época, Istoé, Caras, Capricho ou numa revista de receitas – ou seja, o cliente não tem certeza de nada.
E o cliente ainda insiste, dizendo “ter absoluta certeza de que a capa era assim”:
- A capa era azul, com um tom de verde puxado pra o cinza com uns toques vermelhos e o nome do título e do autor em cima, de um tom marrom ou preto – mais uma vez, as informações que ele “sabe” não ajudaram em nada para desvendar de que livro se trata.
Em casos como esses, faz-se necessário chamar-se Sherlock Holmes ou Agatha Christie, para que possam, juntos, personagem e escritora, tentar desvendar esse segredo, que mais parece uma coisa do além.
E o cliente ainda insiste, por mais impossível de adivinhar que seja de que livro se trata.
- O livro, eu tenho certeza – e ele fala isso com uma convicção... – se trata de um lançamento desses da área de Literatura, Auto-Ajuda, Negócios, Espiritismo ou algo parecido.
Em momentos como esse, o vendedor, já completamente sem paciência, olha para o céu, pedindo aos deuses a paciência necessária para não dar as costas ao maldito cliente (em momentos como esses, o cliente torna-se um maldito que está ali apenas para lhe roubar o tempo) ou, o que é mais provável, pular em cima dele e lhe aplicar um “mata-leão” como lição, para que ele sob pressão, lembre de que livro se trata.
Fora isso tudo, ainda tem aqueles clientes que fazem aquela misturada nos títulos dos livros. Não falo dos “O Soltador de Pipas” ou “Soltador de Balões”, pois estes são fáceis do vendedor adivinhar. Ruim mesmo é quando o cliente “tem certeza” de que o título que tem em mente é o correto, como o daquela senhora simpática que chega para o vendedor e pergunta ao vendedor:
- Você tem “O Padre (ou é o frade, meu filho) e o Homem de Negócios”?.
E ela fala com tanta certeza que o vendedor passa bons dez minutos a procurar no seu programa de busca pelo “Padre e o Homem de Negócios”. Mas por mais que se tente, não se consegue encontrar tal livro, até que uma luz surge em sua cabeça, como nos personagens de desenho animado quando têm uma genial idéia, e ele pergunta:
- Não seria “O Monge e o Executivo”, senhora?
Sim, era este o livro que ela queria desde o princípio.
E tem aqueles que misturam os títulos, como a mocinha que queria “A Menina que Soltava Pipas”. O vendedor, nesses casos, tem que pedir para ela se decidir se quer “A Menina que Roubava livros” ou “O Caçador de Pipas”.
E ainda surgem os que misturam as estações do ano, cidade e profissão, como a mulher que perguntou se tinha na livraria “Outono em Berlim”, querendo, na verdade, “Inverno em Madri”, ou o rapaz que queria “O Carteiro de Istambul”. Tudo bem que este errou a profissão e a cidade, quando queria “O Livreiro de Cabul”, mas o vendedor da Sicililândia sabe sair de situações como essa mantendo a compostura, sem nunca rir.
E há, ainda, aquelas verdadeiras charadas, como a da mulher que gostaria de adquirir o livro “Regime do Estômago”. O vendedor, dessa vez tinha sido pego de surpresa, pois não fazia idéia de que livro se tratava. Tentou todas as possibilidades de títulos, até que a cliente comentou que ele tinha saído numa revista da semana passada, na Veja, e estava entre os mais vendidos (e aí o vendedor volta para a questão de revista, imaginando, de antemão, que não se tratava de Veja da semana passada, mas sim da GloboRural de dois meses antes). Mas pistas como esses, em situações tão críticas, até que podem ser úteis.
- E a capa é de uma cor bem bonita, berrante – o vendedor olha para a cliente, que veste uma saia mais colorida que um arco-íris, calça uma sandália de salto alto extra-fino, usa uma bolsa que é quase uma mochila, na qual ela guarda até o seu armário de banheiro, e percebe que ela usa uns brincos que lhe chamam a atenção, que são duas pequenas pedras de um tom alaranjado. O vendedor, safo como é, faz uma associação de idéias e começa a pensar:
“Regime” é igual a “Dieta”, o “Estômago” fica na barriga, barriga é “Abdômen”.
- Não seria, senhora, o livro “Dieta do Abdômen”?
Sim, era aquele o bendito livro!
E ainda tem gente que acredita ser fácil a vida de vendedor na Sicililândia!

por Arlindowsk de Limovich

domingo, 15 de março de 2009

Uma mulher (quase) perfeita - Crônicas da Sicililândia

Ao passar pela porta da Sicililândia, entrando na livraria, uma mulher, de tão linda que era, parou toda a turba de gente que se encontrava no estabelecimento para contemplá-la. Era tão linda que os homens pararam para admirá-la e sequer sentiam as cotoveladas que suas respectivas esposas (ou namoradas) lhes aplicavam, na tentativa de chamar sua atenção. Até algumas mulheres pararam para observá-la, invejando sua beleza, sua desenvoltura, seus cabelos loiros esvoaçantes, as roupas que usava. Até o tempo parecia ter parado. Ninguém se mexia, apenas a linda mulher, que consciente de que chamava tanto a atenção por sua beleza, já estava acostumada àquilo. As pessoas mal ousavam respirar. Ninguém piscava. Todos só tinham olhos para aquela deusa encarnada que tinham diante de si.
E um vendedor da Livraria, que só ao perceber que todos tinham a atenção fixa em outro lugar, que não fosse nos livros, foi que se virou e viu a beldade que estava na Sicililândia. Vê-la assim, tão de repente, sem ter se preparado previamente, foi como receber de uma vez todos os raios de sol de uma manhã de domingo diretamente em seu rosto. Quase ficou cego. Não ousava respirar. Só tinha olhos para ela. Seus cabelos eram lindos, seus olhos de um azul tão lindo quanto o céu de início de primavera, seu rosto tão perfeito quanto o retratado por um pintor renascentista e o cheiro do perfume que usava era como o de mil flores desabrochando ao mesmo tempo.
Ela era linda, ela era perfeita e sorriu ao vê-lo. Vinha em sua direção ao vendedor. Todas as pessoas que estavam na sua frente lhe deram passagem, formando um corredor para que ela chegasse até onde queria. O vendedor, já se preparava para se abaixar, reverencia-la, e pedi-la em casamento. Era isso que ele pretendia fazer: pedi-la em casamento. Ficava a se pensar como tinha vivido até aquele momento sem tê-la por perto, sem conhece-la. Ao vê-la, agora, bem ali, na sua frente, vindo em sua direção, foi que se deu conta de quanto sua vida tinha sido vazia de sentido até então.
Ela se aproximava com seu andar majestoso. Seus pés quase não tocavam o chão. Era como se ela flutuasse, tal como os anjos. Sendo que ela não tinha asas. Ela era humana, por mais que parecesse uma deusa, um anjo.
Quando parou a sua frente, ele prendeu a respiração, mais do que já estava presa. Ela iria lhe dirigir a palavra, iria pedir algum livro ou, quem sabe, dizer que aceitava se casar com ele.
Ele já começava a devanear, imaginando como seria o casamento, como ela estaria linda no dia, em quanto seus amigos iriam invejá-lo, em quanto ele se sentiria o homem mais sortudo do mundo. Era como a união entre uma deusa e um homem.
Ela o olhou nos olhos e iria lhe dirigir a palavra. Ele esperou. Todos ao seu redor esperavam, imaginando o que ela iria falar. Ela movia lentamente os lábios, abrindo a boca, para proferir as tão esperadas palavras.
- Você tem O Segredo? – perguntou ela.
Todos os que estavam ao seu redor, sentindo uma imensa decepção. Ela, afinal de contas, não era uma deusa.
O vendedor, como que caindo do céu em que se encontrava há alguns segundos, abaixou a cabeça. “O Segredo?”. “Como pode uma mulher dessas, tão linda, tão perfeita, procurar por um livro desses?”.
Bem, aquilo era o trabalho dele, aquela era uma cliente, e ele tinha que vender o livro, não importa qual fosse e a quem fosse.
- Sim. Eu tenho o livro – e foi pega-lo. Entregou o livro à mulher, que agradeceu, foi até o caixa, pagou usando seu cartão de crédito, antes perguntando se podia parcelar a compra, e foi embora, deixando para trás um rastro de admiradores e um vendedor decepcionado.

Por Arlindowsk de Limovich