quinta-feira, 30 de abril de 2009

Hemeroteca - crônicas da Sicililândia

A livraria era pequena, e por se localizar numa avenida do centro isso lhe proporcionava uma alta freqüência de clientes e também de figuras ilustres. Naquele dia de segunda-feira o movimento estava tranqüilo então o vendedor aproveitou para arrumar a sua seção de livros de auto-ajuda. As prateleiras dessa seção ficavam próximas à vitrine da loja onde de vez em quando dava pro vendedor ver seus clientes chegando e até os cumprimentavam por entre os vidros quando os mesmos não entravam. Foi numa dessas olhadas que ele viu aquele senhor com um olhar curioso como se estivesse fazendo uma vistoria. O senhor entrou na livraria e foi caminhando em direção do vendedor. O senhor tinha uma barba branca e ligeiramente crescida, sua barriga arredondada e suas bochechas um pouco rosadas. O que lhe dava um ar engraçado. O rapaz que arrumava seus livros prontamente ficou a disposição do senhor que lhe perguntou com um sorriso onde ficava a hemeroteca.
- É um título de livro? - Gentilmente perguntou o vendedor.
- Não. Eu quero saber onde é a hemeroteca.
- Pois não senhor. Então seria algum assunto de ciências?
- Então você não sabe onde fica a hemeroteca? Eu não acredito! - Falou o velho com ar de superioridade e com um sorriso de orelha a orelha.
- Bem. Se o senhor me der mais referências eu posso procurar no meu sistema. – O vendedor não iria ficar por baixo daquele senhor e complementou que o sistema era on-line e também conectado a todas as lojas da rede, e assim poderia achar qualquer livro através das opções de pesquisa como título, autor, editora, seção, assunto, ano de edição, resumo da obra...
Tem gente que vai pra livraria pra passar tempo. Uns vão tomar café. Outros pra ler a tarde inteira sem comprar nada e também há os engraçadinhos que vão pra fazer pegadinhas. Essas pessoas cheias de informações são mesmo fantásticas e querem a todo custo se divertir e os pobres vendedores além de passarem suas oito sofridas horas de trabalho ainda tem que agüentar isso. Aquele senhor e sua hemeroteca não dariam trégua e o vendedor sabia disso então resolveu abrir o jogo e não perder mais tempo indo direto ao assunto.
- Olhe meu senhor me desculpe, mas eu não sei do que o senhor está falando.
- Quanto tempo você trabalha em livrarias?
- Há dez anos e já passei pelas mais variadas áreas de livros e confesso que essa hemeroteca é nova pra mim. E se o senhor puder me ajudar eu lhe agradeceria, pois ainda tenho muito livro pra guardar. – Desabafou o pobre vendedor. Aquele sorridente senhor pegou no braço do vendedor e mostrou a hemeroteca pra ele. O vendedor ficou surpreso ao ver como era grande a hemeroteca e decepcionado por saber que a mesma estava ali o tempo todo bem próximo a ele. O senhor contou que entendia a surpresa do vendedor, pois também passou por aquilo e completou que sempre passava na frente da casa de um amigo seu e sempre via que a hemeroteca estava presente bem ao lado da sala. Os dois riram à vontade e nessa hora uma colega de trabalho do vendedor que era aspirante à supervisora da loja e sempre pegava no pé de todos estava passando por eles. O vendedor então pediu que o senhor perguntasse pra ela onde ficava a hemeroteca, só pra vê-la perturbada. E o velhinho foi fazer mais uma vítima.

Por Eucrânio Pedra

domingo, 29 de março de 2009

"Eu não sei bem qual é o título..." - Crônicas da Sicililândia"

Como se não bastassem tudo pelo que os vendedores da Sicililândia têm que passar, todas as figuraças que têm que atender, ainda por cima aparecem aqueles clientes que chegam para os funcionários soltando aquela famosa frase, que deixa os vendedores de cabelo em pé: “Eu não sei bem qual é o título do livro, mas...” e aí eles começam a dar pistas, com a esperança que o pobre vendedor, liberando o seu lado “mãe Diná” adivinhe de que livro se trata, que livro o cliente quer. Todo vendedor já passou por isso, e com certeza já passou pela sua cabeça a idéia de esganar o cliente, pois “como é que pode, uma pessoa vir comprar um livro e sequer sabe qual é?!”.
Difícil mesmo é qual o cliente-leitor não sabe o título do livro nem sabe pista alguma, que possa ajudar a desvendar todo o mistério. As únicas informações que têm são a de que o livro foi recomendado por uma revista, mas para saber qual revista e quando saiu essa recomendação...
- Eu tenho certeza, meu filho, que o livro foi recomendado por uma revista. Só não lembro bem em que revista foi. Não sei se foi a Veja, Época, Istoé, Caras, Capricho ou numa revista de receitas – ou seja, o cliente não tem certeza de nada.
E o cliente ainda insiste, dizendo “ter absoluta certeza de que a capa era assim”:
- A capa era azul, com um tom de verde puxado pra o cinza com uns toques vermelhos e o nome do título e do autor em cima, de um tom marrom ou preto – mais uma vez, as informações que ele “sabe” não ajudaram em nada para desvendar de que livro se trata.
Em casos como esses, faz-se necessário chamar-se Sherlock Holmes ou Agatha Christie, para que possam, juntos, personagem e escritora, tentar desvendar esse segredo, que mais parece uma coisa do além.
E o cliente ainda insiste, por mais impossível de adivinhar que seja de que livro se trata.
- O livro, eu tenho certeza – e ele fala isso com uma convicção... – se trata de um lançamento desses da área de Literatura, Auto-Ajuda, Negócios, Espiritismo ou algo parecido.
Em momentos como esse, o vendedor, já completamente sem paciência, olha para o céu, pedindo aos deuses a paciência necessária para não dar as costas ao maldito cliente (em momentos como esses, o cliente torna-se um maldito que está ali apenas para lhe roubar o tempo) ou, o que é mais provável, pular em cima dele e lhe aplicar um “mata-leão” como lição, para que ele sob pressão, lembre de que livro se trata.
Fora isso tudo, ainda tem aqueles clientes que fazem aquela misturada nos títulos dos livros. Não falo dos “O Soltador de Pipas” ou “Soltador de Balões”, pois estes são fáceis do vendedor adivinhar. Ruim mesmo é quando o cliente “tem certeza” de que o título que tem em mente é o correto, como o daquela senhora simpática que chega para o vendedor e pergunta ao vendedor:
- Você tem “O Padre (ou é o frade, meu filho) e o Homem de Negócios”?.
E ela fala com tanta certeza que o vendedor passa bons dez minutos a procurar no seu programa de busca pelo “Padre e o Homem de Negócios”. Mas por mais que se tente, não se consegue encontrar tal livro, até que uma luz surge em sua cabeça, como nos personagens de desenho animado quando têm uma genial idéia, e ele pergunta:
- Não seria “O Monge e o Executivo”, senhora?
Sim, era este o livro que ela queria desde o princípio.
E tem aqueles que misturam os títulos, como a mocinha que queria “A Menina que Soltava Pipas”. O vendedor, nesses casos, tem que pedir para ela se decidir se quer “A Menina que Roubava livros” ou “O Caçador de Pipas”.
E ainda surgem os que misturam as estações do ano, cidade e profissão, como a mulher que perguntou se tinha na livraria “Outono em Berlim”, querendo, na verdade, “Inverno em Madri”, ou o rapaz que queria “O Carteiro de Istambul”. Tudo bem que este errou a profissão e a cidade, quando queria “O Livreiro de Cabul”, mas o vendedor da Sicililândia sabe sair de situações como essa mantendo a compostura, sem nunca rir.
E há, ainda, aquelas verdadeiras charadas, como a da mulher que gostaria de adquirir o livro “Regime do Estômago”. O vendedor, dessa vez tinha sido pego de surpresa, pois não fazia idéia de que livro se tratava. Tentou todas as possibilidades de títulos, até que a cliente comentou que ele tinha saído numa revista da semana passada, na Veja, e estava entre os mais vendidos (e aí o vendedor volta para a questão de revista, imaginando, de antemão, que não se tratava de Veja da semana passada, mas sim da GloboRural de dois meses antes). Mas pistas como esses, em situações tão críticas, até que podem ser úteis.
- E a capa é de uma cor bem bonita, berrante – o vendedor olha para a cliente, que veste uma saia mais colorida que um arco-íris, calça uma sandália de salto alto extra-fino, usa uma bolsa que é quase uma mochila, na qual ela guarda até o seu armário de banheiro, e percebe que ela usa uns brincos que lhe chamam a atenção, que são duas pequenas pedras de um tom alaranjado. O vendedor, safo como é, faz uma associação de idéias e começa a pensar:
“Regime” é igual a “Dieta”, o “Estômago” fica na barriga, barriga é “Abdômen”.
- Não seria, senhora, o livro “Dieta do Abdômen”?
Sim, era aquele o bendito livro!
E ainda tem gente que acredita ser fácil a vida de vendedor na Sicililândia!

por Arlindowsk de Limovich

domingo, 15 de março de 2009

Uma mulher (quase) perfeita - Crônicas da Sicililândia

Ao passar pela porta da Sicililândia, entrando na livraria, uma mulher, de tão linda que era, parou toda a turba de gente que se encontrava no estabelecimento para contemplá-la. Era tão linda que os homens pararam para admirá-la e sequer sentiam as cotoveladas que suas respectivas esposas (ou namoradas) lhes aplicavam, na tentativa de chamar sua atenção. Até algumas mulheres pararam para observá-la, invejando sua beleza, sua desenvoltura, seus cabelos loiros esvoaçantes, as roupas que usava. Até o tempo parecia ter parado. Ninguém se mexia, apenas a linda mulher, que consciente de que chamava tanto a atenção por sua beleza, já estava acostumada àquilo. As pessoas mal ousavam respirar. Ninguém piscava. Todos só tinham olhos para aquela deusa encarnada que tinham diante de si.
E um vendedor da Livraria, que só ao perceber que todos tinham a atenção fixa em outro lugar, que não fosse nos livros, foi que se virou e viu a beldade que estava na Sicililândia. Vê-la assim, tão de repente, sem ter se preparado previamente, foi como receber de uma vez todos os raios de sol de uma manhã de domingo diretamente em seu rosto. Quase ficou cego. Não ousava respirar. Só tinha olhos para ela. Seus cabelos eram lindos, seus olhos de um azul tão lindo quanto o céu de início de primavera, seu rosto tão perfeito quanto o retratado por um pintor renascentista e o cheiro do perfume que usava era como o de mil flores desabrochando ao mesmo tempo.
Ela era linda, ela era perfeita e sorriu ao vê-lo. Vinha em sua direção ao vendedor. Todas as pessoas que estavam na sua frente lhe deram passagem, formando um corredor para que ela chegasse até onde queria. O vendedor, já se preparava para se abaixar, reverencia-la, e pedi-la em casamento. Era isso que ele pretendia fazer: pedi-la em casamento. Ficava a se pensar como tinha vivido até aquele momento sem tê-la por perto, sem conhece-la. Ao vê-la, agora, bem ali, na sua frente, vindo em sua direção, foi que se deu conta de quanto sua vida tinha sido vazia de sentido até então.
Ela se aproximava com seu andar majestoso. Seus pés quase não tocavam o chão. Era como se ela flutuasse, tal como os anjos. Sendo que ela não tinha asas. Ela era humana, por mais que parecesse uma deusa, um anjo.
Quando parou a sua frente, ele prendeu a respiração, mais do que já estava presa. Ela iria lhe dirigir a palavra, iria pedir algum livro ou, quem sabe, dizer que aceitava se casar com ele.
Ele já começava a devanear, imaginando como seria o casamento, como ela estaria linda no dia, em quanto seus amigos iriam invejá-lo, em quanto ele se sentiria o homem mais sortudo do mundo. Era como a união entre uma deusa e um homem.
Ela o olhou nos olhos e iria lhe dirigir a palavra. Ele esperou. Todos ao seu redor esperavam, imaginando o que ela iria falar. Ela movia lentamente os lábios, abrindo a boca, para proferir as tão esperadas palavras.
- Você tem O Segredo? – perguntou ela.
Todos os que estavam ao seu redor, sentindo uma imensa decepção. Ela, afinal de contas, não era uma deusa.
O vendedor, como que caindo do céu em que se encontrava há alguns segundos, abaixou a cabeça. “O Segredo?”. “Como pode uma mulher dessas, tão linda, tão perfeita, procurar por um livro desses?”.
Bem, aquilo era o trabalho dele, aquela era uma cliente, e ele tinha que vender o livro, não importa qual fosse e a quem fosse.
- Sim. Eu tenho o livro – e foi pega-lo. Entregou o livro à mulher, que agradeceu, foi até o caixa, pagou usando seu cartão de crédito, antes perguntando se podia parcelar a compra, e foi embora, deixando para trás um rastro de admiradores e um vendedor decepcionado.

Por Arlindowsk de Limovich

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O Gênio da Sicililândia - As Crônicas da Sicililândia

Entrou um cliente na Sicililândia. Estava tão absorvido pelos próprios pensamentos que sequer respondeu aos cumprimentos dos vendedores. Caminhou por toda a loja, escolhendo ao léu um livro de cada sessão, folheando-os e os deixando jogados, fora de seus devidos lugares.
Caminhava tão distraído que acabou por tropeçar em um livro que estava caído no chão. O livro era tão velho e parecia esquecido ali há tanto tempo que uma grossa camada de poeira encobria-o, além das teias de aranha que pareciam prendê-lo ao chão. O cliente, então, curioso como só os clientes da Sicililândia o são, abaixou-se para pega-lo.
- Que livro velho! – foi a única coisa que ele disse.
Estava prestes a jogá-lo novamente no chão quando resolveu averiguar de que livro se tratava. Imaginava ser um livro muito antigo, que ninguém mais se lembrava, como o primeiro de Nora Roberts, Sidney Sheldon ou o Best-Seller que foi citado numa revista de fofoca da semana anterior.
O homem então começou a limpar o livro, da mesma forma que Aladim faria ao limpar sua Lâmpada Mágica, quando uma espessa nuvem de fumaça surgiu. O cliente, apavorado, imaginando tratar-se fogo, já dava os primeiros passos em direção à saída quando olhou para trás e viu que surgia à sua frente não uma labareda de onde provinha o fogo do incêndio, mas sim um Gênio, desses que lhe concedem três desejos, por mais mirabolantes que estes sejam. Mas era um Gênio diferente, pois se tratava de um ser mágico saído de dentro de um livro, e não de uma Lâmpada Mágica. Ele tinha uma basta cabeleira branca e uma barba capaz de dar inveja a Marx e um bigode maior do que o Nietzsche. Na ponta de seu nariz tinha óculos com aros de tartaruga. Segurava na mão direita um livro, “O Código da Vinci”, pôde ler o cliente, enquanto com a outra cofiava a barba. Estava tão entretido com sua leitura que sequer notou que sua presença era requisitada por um cliente, que ao ver o ser mágico sair de dentro de um livro já começava a pensar nos pedidos que iria fazer.
O cliente tossiu, para chamar a atenção do Gênio, que ao perceber que estava fora de sua prisão, justamente na hora do clímax da história, fechou o livro que estava lendo com um estrondo e olhou de forma irritada pra o cliente, que se encolheu todo ante o olhar do Gênio.
- Você me interrompeu na melhor parte do livro. Mas tudo bem, isso faz parte de meu trabalho. Você tem direito a três pedidos, portanto faça-os de uma vez, que eu preciso voltar à minha leitura – disse o gênio, com sua voz retumbante.
O homem então se ajeitou, estufou o peito e pensou bem no que poderia pedir. Pensava em algo grandioso, não necessariamente material. Algo que lhe desse um status, que lhe trouxesse paz, alegria, tranqüilidade, algo que pudesse revolucionar sua qualidade de vida.
Tossiu, como que para limpar a garganta, para fazer seu pedido soar de forma bem clara ao Gênio, que o observava de alto a baixo.
- Eu não quero nada material. Quero, em vez disso, que você me conceda luz, tranqüilidade, uma vida repleta de paz, de amor, de alegria, que minha auto-estima esteja sempre elevada, que eu sempre ouça elogios a meu respeito, etc, etc, etc.
O Gênio cofiou sua barba, pensando. Consultou a enciclopédia, que surgiu em sua mão num passe de mágica. Sorriu, quando descobriu exatamente o que o cliente queria.
- Esse pedido é fácil – disse ele, e fechou a enciclopédia. Ao fazer isso, surgiu uma espessa neblina em volta do cliente, que já se imaginava numa praia deserta, deitado numa rede, escutando o canto dos pássaros e o barulho das ondas quebrando bem perto.
Quando a neblina começou a sumir, o cliente viu, para sua decepção, que continuava no mesmo lugar, na livraria. Perguntou-se onde estava tudo aquilo que tinha pedido. Por certo ele não havia formulado de forma clara seu pedido e o Gênio havia entendido errado.
Ele olhou para o Gênio, que sorria, como se tivesse acabado de fazer o maior milagre do mundo. Foi então que ele percebeu que segurava algo. Quando averiguou de que se tratava, percebeu que era um livro. Estava embalado num papel de presente da livraria. Ele tratou de rasgá-lo, imaginando que iria encontrar naquele livro o que precisava para se alcançar tudo que havia desejado. Mas para sua decepção, o que encontrou não era bem o que esperava.
- Augusto Cury?
- E aí? Gostou? Acertei em cheio no seu pedido, não foi? – disse o Gênio, piscando o olho de forma marota.
- m...ma... mas... – o homem gaguejou. Não sabia o que falar. Quando fez seu pedido, não era em um livro de Augusto Cury que ele tinha pensado.
Respirou fundo duas ou três vezes e olhou de forma recriminadora para o Gênio, que continuava com o mesmo semblante, como se esperasse uma palavra de agradecimento do cliente, o que não aconteceu.
O cliente deixou o livro sobre uma mesa e nada falou ao Gênio, que acostumado como estava a indiferença de seus clientes não se queixou.
- Bem, não era exatamente em um livro que eu pensava quando lhe fiz o pedido, mas tudo bem – disse o homem.
Pensou bem antes de fazer o segundo pedido, repensou. Quando chegou à conclusão, sorriu.
Seu segundo pedido era algo grandioso, que muitas pessoas desejavam ardentemente, mas ninguém alcançara, e que só ele, graças ao Gênio, iria conseguir. Em seu íntimo, ele sorriu, orgulhoso.
Olhou para o Gênio e soube que não havia, agora, forma dele interpretar erroneamente o seu pedido. Respirou fundo, como da outra vez, e falou de forma pausada e firme.
- Eu desejo aquilo que todos buscam desde o início da Criação e ninguém conseguiu: eu quero conhecer o Segredo do Universo, quero ver a face de Deus, conversar com o Diabo, flertar com os anjos e vencer a morte.
O Gênio nem precisou consultar sua enciclopédia para saber o que fazer ante aquele tão portentoso pedido. Só fez sorrir.
A névoa surgiu em volta do homem, que com os braços abertos já se imaginava a contemplar o Universo do alto, ver as galáxias minúsculas, as estrelas a nascer, os anjos a voar pelo firmamento. Mas qual não foi sua surpresa ao abrir os olhos e ver que continuava na livraria! Mais uma vez o Gênio havia lhe pregado uma peça e mais uma vez tinha a mesma expressão de contentamento na face, como se tivesse feito a melhor indicação de livro do Universo.
O homem rasgou aquela segunda embalagem em que estava o livro. Viu que agora o Gênio havia ultrapassado todos os limites.
- Mas?
E o Gênio a olhá-lo, com seu grande sorriso e fazendo sinal de positivo com o dedo polegar.
- Gostou dessa vez? Fale sério: dessa vez eu acertei. Agora você não tem do que reclamar.
E o homem, boquiaberto, não acreditava no que tinha em mãos. Olhava para o livro e olhava para o Gênio, na tentativa de decifrar alguma expressão de zombaria em sua face, o que não encontrou. O Gênio levava aquilo tudo muito a sério, não estava ali para brincadeira.
- Mas Paulo Coelho, seu Gênio?
- Dessa vez eu me superei, não foi? Gostou mesmo do livro?
O homem, já vendo que aquele Gênio não tinha jeito, deixou os dois livros que tinha ganhado sobre uma mesa e já se dirigia para a saída da livraria quando foi chamado pelo Gênio.
- Você ainda tem direito a um pedido. Não vai querer?
O homem deu às costas ao Gênio e fez um gesto em que estava impressa toda a sua decepção. Sabia, em seu íntimo, que se formulasse seu último pedido o Gênio iria aparecer, no mínimo, com um livro de Danielle Steel ou Nora Roberts!

Por Arlindowsk de Limovich

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Ela só queria um livro didático - Crônicas da Sicililândia

Mais um dia estafante de trabalho e o vendedor olhava para seu relógio a cada cinco minutos, com a esperança de ver chegar o momento em que poderia trocar sua farda com uma bonita roupa e ir aproveitar a noite, numa festa regada a muita bebida e música.
O vendedor, já ansioso para que chegasse ao fim aquele dia, olhando a todo instante para a porta, por onde entrariam seus colegas de trabalho, para a troca de turno e ele pudesse ir embora, quando viu se aproximar uma simpática senhora.
- O senhor trabalha aqui? – perguntou ela, mesmo tento observado o logotipo da empresa em sua camisa e seu crachá. O vendedor, já tão acostumado àquela pergunta, mesmo tendo vontade de responder de forma ignorante, apenas respondeu que “sim”, que trabalhava naquela livraria.
A mulher então começou a remexer sua bolsa, em busca da folha de papel em que tinha anotado o nome dos livros e autores que provavelmente a sua filha tinha pedido para comprar. Quando finalmente encontrou a tão procurada lista, que começou a desdobrá-la, o vendedor, já sabendo de antemão do que se tratava, tentou impedi-la daquele trabalho todo, dizendo que não trabalhava com aquele tipo de livro que ela ia pedir. Mas ela não entendeu os gestos do funcionário nem a expressão de ódio em seu olhar, e continuo calmamente a desdobrar a folha de papel. Ao terminar esse trabalho, ela o esfregou de tal maneira que a folha parecia nova.
- Você tem esse livro aqui, meu filho? – perguntou ela.
O vendedor, já sabendo que não dispunha daquele livro que a mulher queria, disse que não antes mesmo de averiguar de que livro, autor e editora se tratava.
- Não, senhora. Nós não estamos trabalhando com livro didático esse ano – respondeu ele, com um sorriso no rosto. Estava tão acostumado com tudo aquilo nas últimas semanas que até seu sorriso não mudava quando era perguntado sobre livros didáticos. Além do mais, a senhora tinha um rosto tão simpático que era impossível agir de maneira menos cortês com ela.
A mulher, com uma expressão de desgosto na face já voltava a dobrar a lista quando a olhou de relance, e resolveu ver se naquela livraria tinha um outro da lista.
- E esse daqui, de português. Você tem?
- Não tenho nenhum livro didático, senhora, infelizmente – respondeu ele, agora em tom um pouco mais ríspido.
A mulher, completamente decepcionada por ter dado uma viagem daquela em vão, para não encontrar nenhum livro, já se retirava, quando se voltou mais uma vez para o vendedor e lhe perguntou:
- Você não tem nem esse daqui, de matemática? – apontando para a lista.
O vendedor, já inteiramente sem paciência, respirou duas ou três vezes profundamente antes de responder.
- Não, senhora. Não tenho nenhum desses livros de sua lista, pois não estou trabalhando com nenhum – ele enfatizou bem essa palavra – livro didático esse ano – ele falou de forma calma, controlada, embora seu queixo tremesse ligeiramente e em seu olhar, senil, transparecesse o ódio que sentia naquele momento.
A mulher resolveu então fazer uma última tentativa.
- E esse aqui, de física, você tem?
O vendedor, tomado repentinamente por uma fúria inexplicável, saiu, deixando a senhora sozinha com sua lista, e foi até o escritório da loja. Voltou um minutinho depois com uma espingarda em punho. Apontou a arma para a mulher e falou de forma firme e enfática:
- Eu não tenho livro didático, senhora.
A mulher, tremendo ante aquela visão apocalíptica, segurou com firmeza a lista numa mão, para mostrar ao vendedor. Com a outra mão apontou.
- E esse aqui de química? – a voz dela tremia tanto que mal se conseguia ouvir o que falava.
- Eu – bum – não – bum – tenho – bum – LIVRO DIDÁTICO – respondeu o vendedor, descarregando a arma sobre a pobre senhora.
A mulher, caída no chão, com o sangue a escapar por todo seu corpo, ainda tinha forças para levantar a mão, que se negava a soltar a lista de livros, enquanto com a outra apontava.
- Nem mesmo o de química? – perguntou ela.
O vendedor então pegou sua metralhadora automática e tal qual um Rambo, deu mais de vinte tiros na mulher.
Quando percebeu que a bondosa senhora não tinha mais vida, ele se agachou e tentou retirar da mão dela aquela lista, que tinha sido seu decreto de morte. Mas ela a segurava com tanta força, como se a salvação de sua alma dependesse daqui, que por mais que o vendedor tentasse, não conseguiu retirar a lista das mãos dela. Foi então que ele pegou novamente sua espingarda e disparou cinco tiros no braço da mulher, estilhaçando-o. Somente sua mão ficou inteira e fechada, negando-se a entregar o papel, a lista de livros didáticos, que seria sua carta de recomendação para entrar no paraíso.
Foram necessários mais de cinco homens da polícia, além dos cachorros a latir e a rosnar, para fazer com que o vendedor largasse a mão da mulher, contra a qual lutava para arrancar aquele papel.
Ele foi preso e no dia do julgamento todos estavam quietos e calados quando ele entrou, sendo escoltado por dez policiais fortemente armados, para protegê-lo daqueles que queria linchá-lo, por ter matado de forma tão cruel aquela bondosa mulher, mas também para proteger as pessoas dele, caso ele fosse acometido de uma nova onda de fúria e ódio repentina.
O julgamento transcorreu de forma tranqüila e sem incidente algum. As testemunhas de acusação e de defesa foram ouvidas, foi-se provado que o homicídio não foi premeditado, sendo o réu, então, sendo acusado de ter cometido um homicídio por motivos torpes.
Quando o promotor de acusação teve sua chance de interrogar o réu, começou a andar de um lado para o outro, como se desfilasse de frente aos jurados e ao juiz. Tirou de dentro de seu paletó um papel, que desdobrou cuidadosamente e mantendo-se a certa distância, perguntou ao vendedor:
- O senhor tinha absoluta certeza de que não tinha esse livro de química?
O réu então pulou de sua cadeira, conseguiu arrancar uma arma de um dos policiais que o escoltava e subindo à mesa onde se encontrava o juiz, apontou o revolver para a própria cabeça e disse de forma clara, para que todos pudessem ouvi-lo e, enfim, entende-lo.
- Eu não tenho NENHUM LIVRO DIDÁTICO – então ele descarregou a arma em sua própria cabeça. Foram seis tiros disparados de forma tão rápida que não houve tempo para impedi-lo.
Quando tudo terminou, o réu foi declarado inocente e todos souberam que ele não tinha, realmente, nenhum livro didático.
Sua alma foi encaminhada ao céu, apesar dele ter matado uma pessoa e dado um fim a própria vida. Sua credencial para a entrada no paraíso era uma lista de livros didáticos.

por Arlindowsk de Limovich