Caminhava tão distraído que acabou por tropeçar em um livro que estava caído no chão. O livro era tão velho e parecia esquecido ali há tanto tempo que uma grossa camada de poeira encobria-o, além das teias de aranha que pareciam prendê-lo ao chão. O cliente, então, curioso como só os clientes da Sicililândia o são, abaixou-se para pega-lo.
- Que livro velho! – foi a única coisa que ele disse.
Estava prestes a jogá-lo novamente no chão quando resolveu averiguar de que livro se tratava. Imaginava ser um livro muito antigo, que ninguém mais se lembrava, como o primeiro de Nora Roberts, Sidney Sheldon ou o Best-Seller que foi citado numa revista de fofoca da semana anterior.
O homem então começou a limpar o livro, da mesma forma que Aladim faria ao limpar sua Lâmpada Mágica, quando uma espessa nuvem de fumaça surgiu. O cliente, apavorado, imaginando tratar-se fogo, já dava os primeiros passos em direção à saída quando olhou para trás e viu que surgia à sua frente não uma labareda de onde provinha o fogo do incêndio, mas sim um Gênio, desses que lhe concedem três desejos, por mais mirabolantes que estes sejam. Mas era um Gênio diferente, pois se tratava de um ser mágico saído de dentro de um livro, e não de uma Lâmpada Mágica. Ele tinha uma basta cabeleira branca e uma barba capaz de dar inveja a Marx e um bigode maior do que o Nietzsche. Na ponta de seu nariz tinha óculos com aros de tartaruga. Segurava na mão direita um livro, “O Código da Vinci”, pôde ler o cliente, enquanto com a outra cofiava a barba. Estava tão entretido com sua leitura que sequer notou que sua presença era requisitada por um cliente, que ao ver o ser mágico sair de dentro de um livro já começava a pensar nos pedidos que iria fazer.
O cliente tossiu, para chamar a atenção do Gênio, que ao perceber que estava fora de sua prisão, justamente na hora do clímax da história, fechou o livro que estava lendo com um estrondo e olhou de forma irritada pra o cliente, que se encolheu todo ante o olhar do Gênio.
- Você me interrompeu na melhor parte do livro. Mas tudo bem, isso faz parte de meu trabalho. Você tem direito a três pedidos, portanto faça-os de uma vez, que eu preciso voltar à minha leitura – disse o gênio, com sua voz retumbante.
O homem então se ajeitou, estufou o peito e pensou bem no que poderia pedir. Pensava em algo grandioso, não necessariamente material. Algo que lhe desse um status, que lhe trouxesse paz, alegria, tranqüilidade, algo que pudesse revolucionar sua qualidade de vida.
Tossiu, como que para limpar a garganta, para fazer seu pedido soar de forma bem clara ao Gênio, que o observava de alto a baixo.
- Eu não quero nada material. Quero, em vez disso, que você me conceda luz, tranqüilidade, uma vida repleta de paz, de amor, de alegria, que minha auto-estima esteja sempre elevada, que eu sempre ouça elogios a meu respeito, etc, etc, etc.
O Gênio cofiou sua barba, pensando. Consultou a enciclopédia, que surgiu em sua mão num passe de mágica. Sorriu, quando descobriu exatamente o que o cliente queria.
- Esse pedido é fácil – disse ele, e fechou a enciclopédia. Ao fazer isso, surgiu uma espessa neblina em volta do cliente, que já se imaginava numa praia deserta, deitado numa rede, escutando o canto dos pássaros e o barulho das ondas quebrando bem perto.
Quando a neblina começou a sumir, o cliente viu, para sua decepção, que continuava no mesmo lugar, na livraria. Perguntou-se onde estava tudo aquilo que tinha pedido. Por certo ele não havia formulado de forma clara seu pedido e o Gênio havia entendido errado.
Ele olhou para o Gênio, que sorria, como se tivesse acabado de fazer o maior milagre do mundo. Foi então que ele percebeu que segurava algo. Quando averiguou de que se tratava, percebeu que era um livro. Estava embalado num papel de presente da livraria. Ele tratou de rasgá-lo, imaginando que iria encontrar naquele livro o que precisava para se alcançar tudo que havia desejado. Mas para sua decepção, o que encontrou não era bem o que esperava.
- Augusto Cury?
- E aí? Gostou? Acertei em cheio no seu pedido, não foi? – disse o Gênio, piscando o olho de forma marota.
- m...ma... mas... – o homem gaguejou. Não sabia o que falar. Quando fez seu pedido, não era em um livro de Augusto Cury que ele tinha pensado.
Respirou fundo duas ou três vezes e olhou de forma recriminadora para o Gênio, que continuava com o mesmo semblante, como se esperasse uma palavra de agradecimento do cliente, o que não aconteceu.
O cliente deixou o livro sobre uma mesa e nada falou ao Gênio, que acostumado como estava a indiferença de seus clientes não se queixou.
- Bem, não era exatamente em um livro que eu pensava quando lhe fiz o pedido, mas tudo bem – disse o homem.
Pensou bem antes de fazer o segundo pedido, repensou. Quando chegou à conclusão, sorriu.
Seu segundo pedido era algo grandioso, que muitas pessoas desejavam ardentemente, mas ninguém alcançara, e que só ele, graças ao Gênio, iria conseguir. Em seu íntimo, ele sorriu, orgulhoso.
Olhou para o Gênio e soube que não havia, agora, forma dele interpretar erroneamente o seu pedido. Respirou fundo, como da outra vez, e falou de forma pausada e firme.
- Eu desejo aquilo que todos buscam desde o início da Criação e ninguém conseguiu: eu quero conhecer o Segredo do Universo, quero ver a face de Deus, conversar com o Diabo, flertar com os anjos e vencer a morte.
O Gênio nem precisou consultar sua enciclopédia para saber o que fazer ante aquele tão portentoso pedido. Só fez sorrir.
A névoa surgiu em volta do homem, que com os braços abertos já se imaginava a contemplar o Universo do alto, ver as galáxias minúsculas, as estrelas a nascer, os anjos a voar pelo firmamento. Mas qual não foi sua surpresa ao abrir os olhos e ver que continuava na livraria! Mais uma vez o Gênio havia lhe pregado uma peça e mais uma vez tinha a mesma expressão de contentamento na face, como se tivesse feito a melhor indicação de livro do Universo.
O homem rasgou aquela segunda embalagem em que estava o livro. Viu que agora o Gênio havia ultrapassado todos os limites.
- Mas?
E o Gênio a olhá-lo, com seu grande sorriso e fazendo sinal de positivo com o dedo polegar.
- Gostou dessa vez? Fale sério: dessa vez eu acertei. Agora você não tem do que reclamar.
E o homem, boquiaberto, não acreditava no que tinha em mãos. Olhava para o livro e olhava para o Gênio, na tentativa de decifrar alguma expressão de zombaria em sua face, o que não encontrou. O Gênio levava aquilo tudo muito a sério, não estava ali para brincadeira.
- Mas Paulo Coelho, seu Gênio?
- Dessa vez eu me superei, não foi? Gostou mesmo do livro?
O homem, já vendo que aquele Gênio não tinha jeito, deixou os dois livros que tinha ganhado sobre uma mesa e já se dirigia para a saída da livraria quando foi chamado pelo Gênio.
- Você ainda tem direito a um pedido. Não vai querer?
O homem deu às costas ao Gênio e fez um gesto em que estava impressa toda a sua decepção. Sabia, em seu íntimo, que se formulasse seu último pedido o Gênio iria aparecer, no mínimo, com um livro de Danielle Steel ou Nora Roberts!
Por Arlindowsk de Limovich
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