sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O Gênio da Sicililândia - As Crônicas da Sicililândia

Entrou um cliente na Sicililândia. Estava tão absorvido pelos próprios pensamentos que sequer respondeu aos cumprimentos dos vendedores. Caminhou por toda a loja, escolhendo ao léu um livro de cada sessão, folheando-os e os deixando jogados, fora de seus devidos lugares.
Caminhava tão distraído que acabou por tropeçar em um livro que estava caído no chão. O livro era tão velho e parecia esquecido ali há tanto tempo que uma grossa camada de poeira encobria-o, além das teias de aranha que pareciam prendê-lo ao chão. O cliente, então, curioso como só os clientes da Sicililândia o são, abaixou-se para pega-lo.
- Que livro velho! – foi a única coisa que ele disse.
Estava prestes a jogá-lo novamente no chão quando resolveu averiguar de que livro se tratava. Imaginava ser um livro muito antigo, que ninguém mais se lembrava, como o primeiro de Nora Roberts, Sidney Sheldon ou o Best-Seller que foi citado numa revista de fofoca da semana anterior.
O homem então começou a limpar o livro, da mesma forma que Aladim faria ao limpar sua Lâmpada Mágica, quando uma espessa nuvem de fumaça surgiu. O cliente, apavorado, imaginando tratar-se fogo, já dava os primeiros passos em direção à saída quando olhou para trás e viu que surgia à sua frente não uma labareda de onde provinha o fogo do incêndio, mas sim um Gênio, desses que lhe concedem três desejos, por mais mirabolantes que estes sejam. Mas era um Gênio diferente, pois se tratava de um ser mágico saído de dentro de um livro, e não de uma Lâmpada Mágica. Ele tinha uma basta cabeleira branca e uma barba capaz de dar inveja a Marx e um bigode maior do que o Nietzsche. Na ponta de seu nariz tinha óculos com aros de tartaruga. Segurava na mão direita um livro, “O Código da Vinci”, pôde ler o cliente, enquanto com a outra cofiava a barba. Estava tão entretido com sua leitura que sequer notou que sua presença era requisitada por um cliente, que ao ver o ser mágico sair de dentro de um livro já começava a pensar nos pedidos que iria fazer.
O cliente tossiu, para chamar a atenção do Gênio, que ao perceber que estava fora de sua prisão, justamente na hora do clímax da história, fechou o livro que estava lendo com um estrondo e olhou de forma irritada pra o cliente, que se encolheu todo ante o olhar do Gênio.
- Você me interrompeu na melhor parte do livro. Mas tudo bem, isso faz parte de meu trabalho. Você tem direito a três pedidos, portanto faça-os de uma vez, que eu preciso voltar à minha leitura – disse o gênio, com sua voz retumbante.
O homem então se ajeitou, estufou o peito e pensou bem no que poderia pedir. Pensava em algo grandioso, não necessariamente material. Algo que lhe desse um status, que lhe trouxesse paz, alegria, tranqüilidade, algo que pudesse revolucionar sua qualidade de vida.
Tossiu, como que para limpar a garganta, para fazer seu pedido soar de forma bem clara ao Gênio, que o observava de alto a baixo.
- Eu não quero nada material. Quero, em vez disso, que você me conceda luz, tranqüilidade, uma vida repleta de paz, de amor, de alegria, que minha auto-estima esteja sempre elevada, que eu sempre ouça elogios a meu respeito, etc, etc, etc.
O Gênio cofiou sua barba, pensando. Consultou a enciclopédia, que surgiu em sua mão num passe de mágica. Sorriu, quando descobriu exatamente o que o cliente queria.
- Esse pedido é fácil – disse ele, e fechou a enciclopédia. Ao fazer isso, surgiu uma espessa neblina em volta do cliente, que já se imaginava numa praia deserta, deitado numa rede, escutando o canto dos pássaros e o barulho das ondas quebrando bem perto.
Quando a neblina começou a sumir, o cliente viu, para sua decepção, que continuava no mesmo lugar, na livraria. Perguntou-se onde estava tudo aquilo que tinha pedido. Por certo ele não havia formulado de forma clara seu pedido e o Gênio havia entendido errado.
Ele olhou para o Gênio, que sorria, como se tivesse acabado de fazer o maior milagre do mundo. Foi então que ele percebeu que segurava algo. Quando averiguou de que se tratava, percebeu que era um livro. Estava embalado num papel de presente da livraria. Ele tratou de rasgá-lo, imaginando que iria encontrar naquele livro o que precisava para se alcançar tudo que havia desejado. Mas para sua decepção, o que encontrou não era bem o que esperava.
- Augusto Cury?
- E aí? Gostou? Acertei em cheio no seu pedido, não foi? – disse o Gênio, piscando o olho de forma marota.
- m...ma... mas... – o homem gaguejou. Não sabia o que falar. Quando fez seu pedido, não era em um livro de Augusto Cury que ele tinha pensado.
Respirou fundo duas ou três vezes e olhou de forma recriminadora para o Gênio, que continuava com o mesmo semblante, como se esperasse uma palavra de agradecimento do cliente, o que não aconteceu.
O cliente deixou o livro sobre uma mesa e nada falou ao Gênio, que acostumado como estava a indiferença de seus clientes não se queixou.
- Bem, não era exatamente em um livro que eu pensava quando lhe fiz o pedido, mas tudo bem – disse o homem.
Pensou bem antes de fazer o segundo pedido, repensou. Quando chegou à conclusão, sorriu.
Seu segundo pedido era algo grandioso, que muitas pessoas desejavam ardentemente, mas ninguém alcançara, e que só ele, graças ao Gênio, iria conseguir. Em seu íntimo, ele sorriu, orgulhoso.
Olhou para o Gênio e soube que não havia, agora, forma dele interpretar erroneamente o seu pedido. Respirou fundo, como da outra vez, e falou de forma pausada e firme.
- Eu desejo aquilo que todos buscam desde o início da Criação e ninguém conseguiu: eu quero conhecer o Segredo do Universo, quero ver a face de Deus, conversar com o Diabo, flertar com os anjos e vencer a morte.
O Gênio nem precisou consultar sua enciclopédia para saber o que fazer ante aquele tão portentoso pedido. Só fez sorrir.
A névoa surgiu em volta do homem, que com os braços abertos já se imaginava a contemplar o Universo do alto, ver as galáxias minúsculas, as estrelas a nascer, os anjos a voar pelo firmamento. Mas qual não foi sua surpresa ao abrir os olhos e ver que continuava na livraria! Mais uma vez o Gênio havia lhe pregado uma peça e mais uma vez tinha a mesma expressão de contentamento na face, como se tivesse feito a melhor indicação de livro do Universo.
O homem rasgou aquela segunda embalagem em que estava o livro. Viu que agora o Gênio havia ultrapassado todos os limites.
- Mas?
E o Gênio a olhá-lo, com seu grande sorriso e fazendo sinal de positivo com o dedo polegar.
- Gostou dessa vez? Fale sério: dessa vez eu acertei. Agora você não tem do que reclamar.
E o homem, boquiaberto, não acreditava no que tinha em mãos. Olhava para o livro e olhava para o Gênio, na tentativa de decifrar alguma expressão de zombaria em sua face, o que não encontrou. O Gênio levava aquilo tudo muito a sério, não estava ali para brincadeira.
- Mas Paulo Coelho, seu Gênio?
- Dessa vez eu me superei, não foi? Gostou mesmo do livro?
O homem, já vendo que aquele Gênio não tinha jeito, deixou os dois livros que tinha ganhado sobre uma mesa e já se dirigia para a saída da livraria quando foi chamado pelo Gênio.
- Você ainda tem direito a um pedido. Não vai querer?
O homem deu às costas ao Gênio e fez um gesto em que estava impressa toda a sua decepção. Sabia, em seu íntimo, que se formulasse seu último pedido o Gênio iria aparecer, no mínimo, com um livro de Danielle Steel ou Nora Roberts!

Por Arlindowsk de Limovich

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Ela só queria um livro didático - Crônicas da Sicililândia

Mais um dia estafante de trabalho e o vendedor olhava para seu relógio a cada cinco minutos, com a esperança de ver chegar o momento em que poderia trocar sua farda com uma bonita roupa e ir aproveitar a noite, numa festa regada a muita bebida e música.
O vendedor, já ansioso para que chegasse ao fim aquele dia, olhando a todo instante para a porta, por onde entrariam seus colegas de trabalho, para a troca de turno e ele pudesse ir embora, quando viu se aproximar uma simpática senhora.
- O senhor trabalha aqui? – perguntou ela, mesmo tento observado o logotipo da empresa em sua camisa e seu crachá. O vendedor, já tão acostumado àquela pergunta, mesmo tendo vontade de responder de forma ignorante, apenas respondeu que “sim”, que trabalhava naquela livraria.
A mulher então começou a remexer sua bolsa, em busca da folha de papel em que tinha anotado o nome dos livros e autores que provavelmente a sua filha tinha pedido para comprar. Quando finalmente encontrou a tão procurada lista, que começou a desdobrá-la, o vendedor, já sabendo de antemão do que se tratava, tentou impedi-la daquele trabalho todo, dizendo que não trabalhava com aquele tipo de livro que ela ia pedir. Mas ela não entendeu os gestos do funcionário nem a expressão de ódio em seu olhar, e continuo calmamente a desdobrar a folha de papel. Ao terminar esse trabalho, ela o esfregou de tal maneira que a folha parecia nova.
- Você tem esse livro aqui, meu filho? – perguntou ela.
O vendedor, já sabendo que não dispunha daquele livro que a mulher queria, disse que não antes mesmo de averiguar de que livro, autor e editora se tratava.
- Não, senhora. Nós não estamos trabalhando com livro didático esse ano – respondeu ele, com um sorriso no rosto. Estava tão acostumado com tudo aquilo nas últimas semanas que até seu sorriso não mudava quando era perguntado sobre livros didáticos. Além do mais, a senhora tinha um rosto tão simpático que era impossível agir de maneira menos cortês com ela.
A mulher, com uma expressão de desgosto na face já voltava a dobrar a lista quando a olhou de relance, e resolveu ver se naquela livraria tinha um outro da lista.
- E esse daqui, de português. Você tem?
- Não tenho nenhum livro didático, senhora, infelizmente – respondeu ele, agora em tom um pouco mais ríspido.
A mulher, completamente decepcionada por ter dado uma viagem daquela em vão, para não encontrar nenhum livro, já se retirava, quando se voltou mais uma vez para o vendedor e lhe perguntou:
- Você não tem nem esse daqui, de matemática? – apontando para a lista.
O vendedor, já inteiramente sem paciência, respirou duas ou três vezes profundamente antes de responder.
- Não, senhora. Não tenho nenhum desses livros de sua lista, pois não estou trabalhando com nenhum – ele enfatizou bem essa palavra – livro didático esse ano – ele falou de forma calma, controlada, embora seu queixo tremesse ligeiramente e em seu olhar, senil, transparecesse o ódio que sentia naquele momento.
A mulher resolveu então fazer uma última tentativa.
- E esse aqui, de física, você tem?
O vendedor, tomado repentinamente por uma fúria inexplicável, saiu, deixando a senhora sozinha com sua lista, e foi até o escritório da loja. Voltou um minutinho depois com uma espingarda em punho. Apontou a arma para a mulher e falou de forma firme e enfática:
- Eu não tenho livro didático, senhora.
A mulher, tremendo ante aquela visão apocalíptica, segurou com firmeza a lista numa mão, para mostrar ao vendedor. Com a outra mão apontou.
- E esse aqui de química? – a voz dela tremia tanto que mal se conseguia ouvir o que falava.
- Eu – bum – não – bum – tenho – bum – LIVRO DIDÁTICO – respondeu o vendedor, descarregando a arma sobre a pobre senhora.
A mulher, caída no chão, com o sangue a escapar por todo seu corpo, ainda tinha forças para levantar a mão, que se negava a soltar a lista de livros, enquanto com a outra apontava.
- Nem mesmo o de química? – perguntou ela.
O vendedor então pegou sua metralhadora automática e tal qual um Rambo, deu mais de vinte tiros na mulher.
Quando percebeu que a bondosa senhora não tinha mais vida, ele se agachou e tentou retirar da mão dela aquela lista, que tinha sido seu decreto de morte. Mas ela a segurava com tanta força, como se a salvação de sua alma dependesse daqui, que por mais que o vendedor tentasse, não conseguiu retirar a lista das mãos dela. Foi então que ele pegou novamente sua espingarda e disparou cinco tiros no braço da mulher, estilhaçando-o. Somente sua mão ficou inteira e fechada, negando-se a entregar o papel, a lista de livros didáticos, que seria sua carta de recomendação para entrar no paraíso.
Foram necessários mais de cinco homens da polícia, além dos cachorros a latir e a rosnar, para fazer com que o vendedor largasse a mão da mulher, contra a qual lutava para arrancar aquele papel.
Ele foi preso e no dia do julgamento todos estavam quietos e calados quando ele entrou, sendo escoltado por dez policiais fortemente armados, para protegê-lo daqueles que queria linchá-lo, por ter matado de forma tão cruel aquela bondosa mulher, mas também para proteger as pessoas dele, caso ele fosse acometido de uma nova onda de fúria e ódio repentina.
O julgamento transcorreu de forma tranqüila e sem incidente algum. As testemunhas de acusação e de defesa foram ouvidas, foi-se provado que o homicídio não foi premeditado, sendo o réu, então, sendo acusado de ter cometido um homicídio por motivos torpes.
Quando o promotor de acusação teve sua chance de interrogar o réu, começou a andar de um lado para o outro, como se desfilasse de frente aos jurados e ao juiz. Tirou de dentro de seu paletó um papel, que desdobrou cuidadosamente e mantendo-se a certa distância, perguntou ao vendedor:
- O senhor tinha absoluta certeza de que não tinha esse livro de química?
O réu então pulou de sua cadeira, conseguiu arrancar uma arma de um dos policiais que o escoltava e subindo à mesa onde se encontrava o juiz, apontou o revolver para a própria cabeça e disse de forma clara, para que todos pudessem ouvi-lo e, enfim, entende-lo.
- Eu não tenho NENHUM LIVRO DIDÁTICO – então ele descarregou a arma em sua própria cabeça. Foram seis tiros disparados de forma tão rápida que não houve tempo para impedi-lo.
Quando tudo terminou, o réu foi declarado inocente e todos souberam que ele não tinha, realmente, nenhum livro didático.
Sua alma foi encaminhada ao céu, apesar dele ter matado uma pessoa e dado um fim a própria vida. Sua credencial para a entrada no paraíso era uma lista de livros didáticos.

por Arlindowsk de Limovich