quinta-feira, 30 de abril de 2009

Hemeroteca - crônicas da Sicililândia

A livraria era pequena, e por se localizar numa avenida do centro isso lhe proporcionava uma alta freqüência de clientes e também de figuras ilustres. Naquele dia de segunda-feira o movimento estava tranqüilo então o vendedor aproveitou para arrumar a sua seção de livros de auto-ajuda. As prateleiras dessa seção ficavam próximas à vitrine da loja onde de vez em quando dava pro vendedor ver seus clientes chegando e até os cumprimentavam por entre os vidros quando os mesmos não entravam. Foi numa dessas olhadas que ele viu aquele senhor com um olhar curioso como se estivesse fazendo uma vistoria. O senhor entrou na livraria e foi caminhando em direção do vendedor. O senhor tinha uma barba branca e ligeiramente crescida, sua barriga arredondada e suas bochechas um pouco rosadas. O que lhe dava um ar engraçado. O rapaz que arrumava seus livros prontamente ficou a disposição do senhor que lhe perguntou com um sorriso onde ficava a hemeroteca.
- É um título de livro? - Gentilmente perguntou o vendedor.
- Não. Eu quero saber onde é a hemeroteca.
- Pois não senhor. Então seria algum assunto de ciências?
- Então você não sabe onde fica a hemeroteca? Eu não acredito! - Falou o velho com ar de superioridade e com um sorriso de orelha a orelha.
- Bem. Se o senhor me der mais referências eu posso procurar no meu sistema. – O vendedor não iria ficar por baixo daquele senhor e complementou que o sistema era on-line e também conectado a todas as lojas da rede, e assim poderia achar qualquer livro através das opções de pesquisa como título, autor, editora, seção, assunto, ano de edição, resumo da obra...
Tem gente que vai pra livraria pra passar tempo. Uns vão tomar café. Outros pra ler a tarde inteira sem comprar nada e também há os engraçadinhos que vão pra fazer pegadinhas. Essas pessoas cheias de informações são mesmo fantásticas e querem a todo custo se divertir e os pobres vendedores além de passarem suas oito sofridas horas de trabalho ainda tem que agüentar isso. Aquele senhor e sua hemeroteca não dariam trégua e o vendedor sabia disso então resolveu abrir o jogo e não perder mais tempo indo direto ao assunto.
- Olhe meu senhor me desculpe, mas eu não sei do que o senhor está falando.
- Quanto tempo você trabalha em livrarias?
- Há dez anos e já passei pelas mais variadas áreas de livros e confesso que essa hemeroteca é nova pra mim. E se o senhor puder me ajudar eu lhe agradeceria, pois ainda tenho muito livro pra guardar. – Desabafou o pobre vendedor. Aquele sorridente senhor pegou no braço do vendedor e mostrou a hemeroteca pra ele. O vendedor ficou surpreso ao ver como era grande a hemeroteca e decepcionado por saber que a mesma estava ali o tempo todo bem próximo a ele. O senhor contou que entendia a surpresa do vendedor, pois também passou por aquilo e completou que sempre passava na frente da casa de um amigo seu e sempre via que a hemeroteca estava presente bem ao lado da sala. Os dois riram à vontade e nessa hora uma colega de trabalho do vendedor que era aspirante à supervisora da loja e sempre pegava no pé de todos estava passando por eles. O vendedor então pediu que o senhor perguntasse pra ela onde ficava a hemeroteca, só pra vê-la perturbada. E o velhinho foi fazer mais uma vítima.

Por Eucrânio Pedra

Um comentário:

Escritor Lima Neto disse...

Parabéns, Eucrânio Pedra. depois que li seu texto, senti-me extremamente frustrado por, mesmo trabalhando há tanto tempo numa livraria, não saber o que vinha a ser uma Hemeroteca, e confesso nunca ter ouvido falar disso (imaginava até que se tratava de alguma nova doença ou remédio genérico!).
sentindo-me mal como eu estava, por não saber algo tão importante, algo tão vital, fui ao dicionário, vulgo pai dos burros, para descobrir o que vinha a ser "hemeroteca" e, bah!!! descobri. vir descobrir o que é hemeroteca foi como se eu fosse envolvido por uma luz de sabedoria, e desde então a minha vida na Siciliano (digo, Sicililândia), nunca mais foi a mesma. tanto que cada cliente que aparece na livraria, antes mesmo de cumprimenta-lo e lhe indicar um livro, eu pergunto se gostaria de conhecer a nossa hemeroteca. o cliente, lógico, não sabendo do que se trata, quer saber conhecer a hemeroteca da livraria, e quando esta lhe é apresentada. após ver do que realmente se tratava, ele fica se sente tão estranho, tão feliz que ri sonoramente, não sabendo se de nós, ou se sua ignorância.